Da madrugada à noite: histórias de mulheres que transformam o trabalho em sustento nas feiras de Mogi

Secretaria de Agricultura e Segurança Alimentar

Entre bancas, panelas e recomeços diários, as feirantes de Mogi das Cruzes revelam força, protagonismo e dedicação em jornadas que vão muito além da venda.

30 de março de 2026
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Ainda é madrugada quando o despertador toca. São 2 horas da manhã. É preciso se apressar. Café rápido, abastecer o caminhão com produtos variados e seguir para mais um dia de trabalho. Enquanto a maior parte da cidade dorme, elas precisam começar sua rotina: transportar os produtos e montar a barraca onde os mogianos farão as compras da semana. Uma rotina que só vai terminar após o meio-dia.
 
Essa é a realidade de quase 100 mulheres que atuam nas feiras livres e varejões de Mogi das Cruzes. Elas representam quase 1/3 dos 380 feirantes cadastrados na Secretaria Municipal de Agricultura e Segurança Alimentar, que ajudam a garantir alimento fresco na mesa de mais de 1,3 milhão de pessoas todos os anos. Mogi das Cruzes dispõe de 27 feiras em 18 diferentes pontos (regiões) da cidade, ou seja, cerca de 1.500 feiras realizadas por ano. 

Mas por trás de cada banca, existe uma história que vai muito além da venda. Maria dos Aflitos Barbosa, 40 anos, conhece bem esse ritmo.
Quando muitos ainda estão no primeiro sono, ela já está escolhendo as verduras, organizando caixas e ajudando a abastecer o caminhão que sai da sua propriedade, em Biritiba Ussu, para atuar em diferentes bairros da cidade. “Tem dia que o corpo pede descanso, mas a vida não espera”, conta. Depois da feira, ela volta para casa. E o trabalho continua: almoço, organização da casa, contas, família. Descansar? Só quando dá”, completa ela, que está há 13 anos na mesma rotina.

Leticia Freitas, 35 anos, tem a mesma opinião. Há 17 anos atuando no comércio de peixes na Feira de Jundiapeba, ela atua em uma das barracas mais procuradas no espaço. “É um trabalho que não dá para parar. O cliente precisa de atenção e a gente quer que ele se sinta satisfeito com a compra. Bom atendimento é tudo”, afirma.

“Não é só vender. É cuidar de tudo. Mas quando o cliente volta e diz que gostou, vale a pena”, completa Daniela Aparecida dos Passos, de 32 anos. Moradora de Biritiba Ussu, ela planta, colhe e vende suas próprias verduras. No meio disso, ainda é mãe, dona de casa e empreendedora. “Nós, mulheres, somos múltiplas funções”, brinca, enquanto edita vídeo de seus produtos nas redes sociais.
 
Se para algumas o dia termina no início da tarde, para outras ele apenas muda de turno. É o caso de Kátia Sato e Solange Anastácio que atuam nas barracas de pastel das feiras noturnas da cidade, às quintas-feiras. Kátia em Braz Cubas e Solange no Alto Ipiranga. Apesar da distância, a rotina é a mesma: passam o dia inteiro na cozinha preparando massas, recheios e tudo que será vendido mais tarde, na feira noturna. “A feira da noite é outra correria”, conta Kátia, há 19 anos no ramo. Ela aprendeu o ofício com os pais. “Nossos salgados são totalmente artesanais, desde a massa ao recheio. Esse é nosso diferencial, uma deliciosa imitação de canolli feita com massa do pastel bem fininha passada no açúcar de confeiteiro e canela recheado com doce leite caseiro ou chantyninho”, confidencia.

Para ela, empreendedora nata, o maior desafio da mulher atual ainda é o físico. “Montar e desmontar a barraca exige força. São cerca de 23kg de placa inox que preciso levantar ou descer do bagageiro da Kombi e, tudo com ajuda de uma escadinha, já que tenho 1,57cm e minha estatura não me ajuda muito. Mas a gente dá conta”, diz. 

Aos 66 anos de idade, dos quais 11 dedicados ao comércio de pastel, pães e bolos Solange Anastácio é uma das feirantes mais procuradas na Feira Noturna do Produtor Rural (a Feira da Mesquita), no Alto Ipiranga. “Ali, a gente não tem clientes, são pessoas amigas para uma vida inteira”, conta. “Foi daqui que eu tirei o sustento dos meus filhos. A feira me deu tudo”, conclui.